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Jornada Quaresmal

Com a Quarta-feira de cinzas começamos, junto com toda a Igreja, o caminho Quaresmal. Esta jornada nos leva a experimentar os frutos da morte e da ressurreição de Cristo, esse sacrifício que nos deu a vida nova. Mas não fazemos este caminho sós, Cristo está conosco, porque nós já vivemos n’Ele pelo nosso batismo e Ele vive em nós. O Papa Francisco nos lembra que “Nós não estamos numa época de mudanças, nós estamos numa mudança de época”. De alguma forma já não somos mais do mundo antigo, mas ainda não constituímos o mundo novo que está surgindo. Por isso temos que ter muita atenção e consciência, para não ficarmos perdidos no meio docaminho.

​Na igreja primitiva o Sacramento do batismo era concedido aos catecúmenos: adultos que queriam ser cristãos e que, para isso, recebiam uma longa instruçãoespiritual, onde preparavam-se para morrer com Cristo e ressuscitar com Ele. Era a morte do homem velho pararessurgir revestido do homem novo. Essa preparação durava alguns anos e ficava ainda mais intensa nesses quarenta dias antes da Páscoa. Esta catequese era umaforma de treinamento: o catecúmeno aprendia a renunciar tudo aquilo que o mundo adora como falsos deuses; era levado a renunciar à confiança que o mundo coloca nas coisas que não são Deus; e aprendia a se desapegar de tudo, entendendo que a vida dele ia ser realmente uma morte e uma ressurreição, levando-o a despertar para uma vida completamente diferente, com outra maneira de ver ecom outros valores. Por isso que o cristão, nos primeiros anos, fazia a diferença no mundo: ele não pensava ou agia como os outros. O seguidor de Cristo sempre surpreendia pela maneira de ser, contrariando todos os valores do mundo antigo e pagão.

​Mas quando foi que deixou de ser assim? Quando o cristianismo deixou de ser perseguido, transformando-se na religião oficial do Império, todos queriam receber o batismo. No entanto, a quantidade de pessoas para o sacramento aumentou de tal forma que já não havia mais como fazer a preparação de maneira tão personalizada, tão lenta e tão forte, como nos anos anteriores. E isso já era visto como um problema por alguns cristãos da época, surgindo questionamentos como: “Puxa, hoje em dia estão recebendo o batismo pessoas que não sabem fazer nem o sinal da cruz, pessoas que não sabem nem qual é a nossa fé”. Mas já era tarde demais, o mundo adotou o cristianismo oficialmente e, partir daí, uma cultura cristã surgiu. A Igreja, pouco a pouco, aceitou que se uma família é cristã, a criança vai aprendendo a ser também da melhor maneira, experimentando Cristo dentro do lar. Assim, a Igreja não se importava mais em batizar a criança pequena, porque aquela preparação lenta, forte e profunda que os adultos recebiam no Catecumenato, aconteceria,agora, pela mão dos pais e padrinhos. A estes cabia ensinaro que é ser cristão, escolher o que é de Cristo, a rejeitar o que não é dEle. Desse modo, enquanto iam crescendo na vida biológica, a criança amadureceria também na vida de fé, tornando-se cristã quase que naturalmente.

​Aqui nós entendemos porque estamos no meio de uma encruzilhada histórica: o mundo em que vivemos não é mais cristão. A preparação para viver em Cristo e ser iniciado pelo batismo, antes confiado que aconteceria no seio familiar, não funciona mais. E todos nós, não importa a idade, somos filhos de um mundo que já não é mais cristão. Nós não somos mais impregnados de Cristo, porque em nossas casas a voz que ecoa é das TV’s e das Mídias Sociais ao invés da Palavra de Deus. Os pais estão ausentes, os padrinhos não conhecem sua função e nas instituições já não existe mais os valores cristãos. Ou seja, a criança recebe o Sacramento, mas não vive a vida nova em Cristo porque ninguém transmitiu esta novidade para ela. Esta tem um tesouro, mas não o conhece. Não conhece porque não a apresentaram. E por esta ignorância, ela não vive Cristo. Até aprende a viver a religião, mas de forma pagã, não de forma cristã. O Pagão vive uma religião que reconhece a existência de um ser ou uma força da qual ele precisa para ajudá-lo nas situações da vida, principalmente relacionadas àquelas que não pode controlar. E, ao que parece, muitos que hoje se denominam cristãos encaram desta forma o seu batismo, pois não entenderam que, para receber uma vida nova, é preciso tem uma outra forma de ver, de pensar e de que agir que surge quando há uma completa transformação de si.

Por isso, como é maravilhoso que a Igreja nos concedaesse período de quarenta dias como uma oportunidade de voltarmos a aprender a ser cristãos, para entrar de novo no Catecumenato e voltarmos a entender o que é ser de Cristo. Retornamos a luta espiritual onde renunciamos ao mundo, ao demônio e suas enganações e aos falsos deuses. Esse treinamento nos prepara para sermos livres em Cristo, livres das ambições, livres da escravidão dos prazeres, livre do egoísmo, livres do apego desordenado às coisas e às riquezas. Damos morte a tudo isso.

​Visto dessa maneira, como é bonito começarmos a Quaresma com as cinzas, pois nos recorda como tudo termina. O próprio corpo humano, no seu fim, se consome desta maneira, seja pela cremação ou decomposição.Portanto, nós partimos da morte. Essa vida que o mundo cultiva, que se preocupa tanto com as coisas que passam(riquezas, honras, prazeres, etc) termina em pó... tudo termina em cinza. Assim, a Quaresma começadespedindo-se desse mundo que termina em cinza e preparando-se para acolher a vida nova, a vida de ressuscitado, a vida de nova criatura, surgida da ressurreição de Cristo.

​Vamos começar com muito entusiasmo e seriedade esse tempo Quaresmal. Este é um período de sobriedade, pois é a forma como o cristão manifesta sua liberdade: é sóbrio na comida, na bebida e nos gastos. Ele gasta menos para poder dar mais aos seus irmãos, ele come menos para poder alimentar aqueles que passam fome. Não é um exercício de auto perfeição, mas sim de amor: esvazia-separa dar mais espaço para o outro e para o amor e, desta forma, acolher o dom da vida nova em Cristo, dando, finalmente, espaço para Ele. É assim que devemos entender a penitência da Quaresma, colocando-se um pouquinho menor para abrir mais espaço: primeiro, para Cristo e, junto com Ele, para o meu irmão, principalmente o mais necessitado.

Baseado na transcrição da homilia do Pe. Celso PôrtoNogueira do dia 26 de fevereiro de 2020 (Quarta-feira de Cinzas)

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