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Páscoa do Senhor

"Irmãos e irmãs, o Evangelho deste Domingo de Páscoa traz a narração da primeira experiência vivida com a ressurreição. Foram, pois, os apóstolos que tiveram este ensaio com o Senhor ressuscitado, mas Cristo, de alguma forma, preparou e introduziu, a esta experiência, um outro momento relatado na Palavra: o túmulo vazio.


João, em todo o seu livro, tem uma maneira interessante de contar os acontecimentos. Ao mesmo tempo que é um Evangelista mais especulativo, que coloca reflexões profundas sobre o Evangelho, não apenas narrando a vida de Jesus, mas mostrando o sentido profundo de cada coisa que acontece, é aquele que descreve as coisas físicas e palpáveis com mais detalhes, não escapando dele, por exemplo, pequenas minúcias como a hora que as coisas aconteceram. Então João tem essas duas características: ao mesmo tempo que tem esse caráter místico e teológico, ele conta os acontecimentos de forma detalhista.


Hoje ele nos conta o que viu quando entrou naquele túmulo vazio. É interessante que as traduções deste texto, em diversos idiomas, dificilmente erram o sentido das palavras que se lê nos escritos originais, documentados em grego. Quando se lê este texto na língua original, é possível encontrar uma descrição muito interessante observada por João, e que nos escapa na tradução. Ele relata como eram colocados os mortos naquela época, diferente dos caixões que usamos hoje. O defunto era envolto em panos: primeiro tinha um grande lençol, no qual eles deitavam o morto em uma parte, e com a outra parte do lençol cobriam da cabeça até os pés, fazendo uma espécie de sanduiche com o lençol por baixo do morto e depois por cima dele. E depois eles amarravam esse lençol com faixas na cabeça, nos braços e nos pés, fazendo como que um embrulho com o morto. Este corpo, então, era repousado num lugar onde aconteciam os processos naturais de decomposição. Depois de um tempo, recolhiam os ossos e colocavam numa pequena urna. Assim faziam com os mortos, e assim fizeram com Jesus: deitaram-no num lençol, o envolveram com faixas e o colocaram numa superfície, num sepulcro fechado por uma pedra. Essa grande pedra se encontra, ainda hoje, na basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém, construída em torno do lugar onde sepultaram Jesus.


Quando Pedro entra no sepulcro, o que vê? Ele se depara com as faixas do sepultamento afrouxadas, e o lençol, que outrora envolvia o corpo do Cristo, dobrado em duas partes, a que ficava abaixo e a que ficava acima do corpo de Jesus. Estava exatamente como quando colocaram o corpo de Jesus, no entanto, ele não estava mais ali. É aí que João olha e acredita na ressurreição de Jesus. O Cristo saiu sozinho dali, e com uma vida diferente daquela que nós conhecemos. Se tivesse havido só uma reanimação, como se tivesse desmaiado na cruz e acordado no sepulcro, Ele teria desatado de si as faixas, retirado o lençol, e aquela cena teria ficado alterada. Por outro lado, se alguém tivesse roubado o corpo, o teria levado com lençol e faixas, não se dando ao trabalho de remontar o cenário do sepultamento.


O Corpo de Cristo volta numa condição diferente, desconhecida de nós, uma vida nova. Quando Jesus ressuscita Lázaro, chamando-o para fora, o morto volta a vida e aparece todo embrulhado no lençol e faixas, levando Jesus a dizer: desamarrem ele e o deixem caminhar. Não é para a vida mortal que Cristo ressuscita, assim como acontece com Lázaro. Jesus ressuscita para uma outra vida, uma vida que vence a morte. E essa vitória de Cristo sobre as amarras daqueles panos mortuários, a vitória sobre o sepulcro de pedra, significa a vitória sobre a prisão da morte para todos. Jesus ressuscita com o seu corpo, se reintegra a ele, mas não na condição mortal, e sim para uma nova vida do corpo glorificado, da carne ressuscitada, para não mais morrer. A carne não mais sujeita aos limites e misérias do nosso corpo mortal. Quando Jesus aparece aos discípulos, depois de ressuscitado, Ele manda que os amigos o toquem, e diz: vejam, um fantasma não tem carne e ossos como vocês veem que eu tenho (Lc 24, 39). Jesus ressuscita com o mesmo corpo que padeceu na cruz, porém este corpo está numa condição de vida nova, imortal e glorificada.


Hoje, irmãos e irmãs, nós vivemos uma cultura de separação entre o corpo e a alma. É interessante como existem católicos que na Missa dizem “creio na ressurreição da carne” e, ao mesmo tempo, acreditam na reencarnação. Se uma pessoa tem diversos corpos, este passa a não fazer parte da identidade dela, ou seja, o corpo é somente uma coisa. E se a pessoa teve vários corpos durante sua passagem pelo mundo, como prega a teoria da reencarnação, então com qual dessas carnes ela vai ressuscitar? E se a carne, como diz o espiritismo, é só uma prisão da matéria, um castigo, do qual nós devemos nos libertar, nos purificar, então que sentido tem a palavra ressurreição da carne de que Jesus Cristo ressuscitou?


Na época que os apóstolos saíram pelo mundo para pregar o evangelho, muitas pessoas acreditavam nesta máxima de que o corpo era uma prisão. Quando Paulo, em Atenas na Grécia, falou da Ressurreição de Cristo, o povo, de imediato, demonstrou desinteresse, pois acreditavam que o corpo era uma prisão da qual precisavam se libertar. E Jesus não veio para nos desatar do corpo, mas da condição mortal, uma vez que o pecado trouxe a morte para nós, separando o corpo e a alma. E tudo que faz essa separação tem a marca da morte e do pecado. Por isso os Sacramentos são sinais do Cristo ressuscitado no meio de nós, pois são realidades físicas, onde não se separa o tangível do espiritual, estando, pois, juntas, uma penetrando na outra. Por exemplo, a água do Batismo é material, mas a graça recebida é espiritual e, apesar de pertencerem a esferas diferentes, uma não é dissociada da outra, estando, assim, integradas, quando o Sacramento acontece. Igualmente isso se realiza com os demais sacramentos, o físico e o espiritual acontecem juntos, tendo aí a marca da ressurreição, do Senhor ressuscitado.


Irmãos, aqui é possível compreender como a gente vive com a cultura da morte. O corpo é tratado como uma coisa, como um objeto de compra e venda, uma mercadoria. E muitas vezes até cultuado e endeusado, mas sempre como uma coisa, nunca como uma identidade da pessoa. No fundo, com essa idolatria, existe um grande desprezo ao corpo, pois o tratamento dado é o de um objeto, não uma expressão da pessoa humana e da sua identidade. Jesus vem nos falar, com a própria ressurreição, que a realidade do nosso corpo é boa, mas é ferida de morte. E esta ferida o Cristo vence, nos restituindo o corpo de ressuscitados. É isso que nós dizemos quando professamos que cremos na ressurreição da carne. Vamos sim renascer, nossos corpos vão ressuscitar, mas não na condição mortal. Teremos o corpo ressuscitado, glorificado, vencedor da morte, da velhice, da doença, da dor, do sofrimento, de tudo. Essa é a graça que Jesus vem nos dar: uma completa vitória da morte, pois o dia que Jesus ressuscitou, a morte morreu. E ela não existe mais. Para nós cristãos a morte é apenas adormecer em Cristo para depois acordar com Cristo, por Cristo e em Cristo numa vida nova, vida de ressuscitados.


Vamos então, irmãos e irmãs, proclamar essa verdade, a verdade da ressurreição de Cristo, a verdade da nossa ressurreição! E vamos já, em nossa vida buscar as coisas do alto, onde está Cristo ressuscitado e onde também nós estaremos. Devemos elevar os nossos olhos para o alto, pois não pertencemos mais a este mundo sujeito a morte. Fazemos parte desta vida nova criada, inaugurada por Jesus naquele túmulo, naquele terceiro dia.


Demos graças, glorifiquemos, exaltemos ao nosso Senhor Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, aleluia!


Adaptado da Homilia do Padre Celso Pôrto Nogueira do Domingo de Páscoa de 2017


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